Adson Sá

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A criança e o seu tratamento na mídia

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Pensem nas criancinhas.

Esta frase não é minha e nem dita por qualquer outro brasileiro na última década. Foi Pelé, o nosso rei do futebol, ao marcar o seu milésimo gol há 39 anos, e em meio à emoção, carregado por torcedores e cercado por vários repórteres, ele exclamou: “Pensem nas criancinhas!”. Edson Arantes sabia, através de sua origem pobre, com inúmeras dificuldades, que apenas uma ínfima minoria conseguiria chegar perto de onde ele chegou. Com o passar dos anos essa frase pode ser dita sem demagogia por mim e por qualquer outro brasileiro que se importe com o futuro do país.

As crianças atualmente têm os seus direitos defendidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado em 1990, vinte anos após o desabafo do rei do futebol. Mas o respeito ao menor está longe de ser acatado, principalmente pelos seus educadores e formadores de opinião: a família, os professores e os meios de comunicação. Os direitos fundamentais para uma criança são: vida, saúde, liberdade, respeito, dignidade, convivência familiar e comunitária, educação, cultura, esporte, lazer e proteção. Dentre esses direitos milhares de leis são feitas e aplicadas. Por que no Brasil ainda se falta muito para compreender essa idéia?

Vou analisar pelo viés da comunicação imagética, embora a comunicação auditiva e os outros dois patriarcas, as famílias e a escola, também serem de extrema relevância no tratamento e na visão passada de nossas crianças. Os meios de comunicação têm o papel de informar à sociedade e formar opiniões sobre a realidade, o que está acontecendo tanto no sentido local quanto global sem estar atrelados politicamente ou economicamente a algo ou alguém. Mas isso, analisando friamente, é praticamente impossível. Temos como exemplo a mídia brasileira que está presa na mão da classe dominante, além das parcerias políticas escondidas por debaixo das mangas, que na verdade todo mundo finge não saber. Isso nós podemos perceber, sem mesmo precisar arregalar os olhos, nas matérias e nos apelos hipócritas, principalmente no que se refere aos pequenos. As crianças ricas não aparecem na televisão com a boca suja.  

A mídia cria uma visão estereotipada da criança pobre. Da casa de tábua, com as roupas sujas e as expressões de tristeza. Já não perguntam o que ela vai ser quando crescer. Porque não importa. Vai ser mais um ladrão, traficante, drogado. Enquanto o menino rico, com suas pompas e roupas de festas, aparecem com um largo sorriso no rosto, estampando sua felicidade que nem sempre condiz com o real. A criança tem o direito de ser feliz. De sorrir e de valorizar sua imagem. Está no seu Estatuto. Artigo 17. “O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”. E Artigo 18. “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. Os meios de comunicação violam a lei, mas quem vai puni-los? O maior erro está em nos acomodarmos a tudo que ocorre. Permitimos a corrupção, preço da gasolina elevado em relação a alguns países que importam petróleo, embora sejamos um dos maiores produtores do mundo, sistema de saúde precário, entre outros problemas político-sócio-econômico.   

Quando mostra fome na favela, aparece uma criança com pés descalços, doente, simbolizando a pobreza do local, colocando o menor em uma situação constrangedora. Muitas vezes não utilizam tarja, nem borram a imagem. A mídia mostra a criança através de notícias com um falso moralismo, que chega até a emocionar os mais piegas. Mas, no cenário falso da televisão e dos jornais, tem muito o que se negar.  Através desse comportamento, os considerados educadores da nova geração contribuem de forma exaustiva para o preconceito em uma sociedade tão “elitizada”. Até os próprios pobres são preconceituosos entre si.

 Quantas vezes por mês podemos ver a imagem de uma criança nas diversas mídias simbolizando sofrimento sem sua face está oculta? Isso não se prende aos meios locais ou regionais. As grandes do país, como a rede Globo, a Record, SBT, Folha de São Paulo, A Tarde, fazem isso sempre. A exploração da imagem infantil, sem preservar a criança. Matérias já premiadas ou de grande produção. Quantas crianças apareceram para representar o sofrimento de um povo! Algum repórter perguntou o que aquelas crianças queriam para o futuro delas?  Será que é certo expormos um inocente à humilhação e eu estou escrevendo coisas insensatas?

A mídia diz que pobre é ruim, que ser feio é ruim, lançando diariamente nas nossas casas o ideal estético. Cadê a democracia lutada por tanto tempo no nosso país? Voltamos a um ponto dantes já ultrapassado e não me limito em dizer que Hitler deve estar rindo disso tudo.

Muitos horrorizam o Nazismo, se pasmam com as atrocidades cometidas por eles e consideram um problema do mundo já enfrentado. Mas o que podemos dizer da nossa sociedade em busca da imagem perfeita? Não há um pseudo-nazismo encoberto por camadas de pó e blush, matando de forma indireta os marginalizados sociais? O que a criança aprende em sua casa é de que como ela deve ser, deve se vestir, como pentear o cabelo. O princípio de uma raça predominante me lembra muito o ideal do Führer, aquele de uma raça Ariana. Uma raça pura. Caracterizando uma sociedade perfeita, sem crianças pobres, sujas, que logo serão bandidos. Enquanto a criança rica e bem vestida, com sua alegria encantadora simboliza um Brasil neonazista comandado por Hitlers caseiros, através dos meios de comunicação sem forma definida, apenas ordenando o que fazer.

A minha esperança é que um dia possamos valorizar o momento do milésimo gol do rei do futebol Pelé. Não pelo feito histórico sem muita relevância para a vida de alguém, mas sim, pela frase dita pelo homem vivido Edson Arantes. “Pensem nas criancinhas”.

Postado em 10/02/2009

Adson Sá é formado em Comunicação pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Editor-Chefe da Revista Única

 

 

 

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