Adson Sá
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Cultura Ilegal
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Há algum tempo notei que nós feirenses e moradores da cidade inconscientemente ou por questão de comodismo nos adaptamos a uma realidade ilegal e convencionada como um dos principais pontos de referência da cidade: o comércio de importados apelidado de Feiraguai.
Escrevo esse artigo não com o intuito de provocar polêmica, mas para instigar reflexão. Como é possível a permissão de um local que faz tráfico de mercadorias e pirataria em pleno ar livre e de acesso a todos? Todas as classes e idades freqüentam o Feiraguai, fazem suas compras, consideram os preços baratos e não param para analisar o que há por detrás das facilidades mercadológicas. É a importação de produtos sem nota fiscal, produtos de origem desconhecida e copia de marcas registradas. Juntando tudo, dá alguns anos de cadeia por prática de comércio ilegal. Todos sabem da irregularidade, até a Receita Federal, mas são permissivos.
Feira de Santana possui uma má fama de cidade dos roubos, contra-bandos e ladrões. Os cheques da cidade em outro Estado não são bem vistos aos olhos dos comerciantes, sendo por muitas vezes negado. Temos uma cultura em que o “jeitinho brasileiro” é vigente e já sobrepõe a honestidade. Apesar de não gostar e não apoiar a expressão “jeitinho brasileiro”, mas que infelizmente já foi condensada na mente e na atitude dos nossos pares, tenho que me reclinar e assumir uma expressão que a muito contragosto vivencio diariamente. Pode ser na rua, no trabalho, nos transportes coletivos ou na fila do banco.
Não estou querendo me passar por utópico ou seguir uma linha contra uma sociedade satisfeita com o que tem, mas é preciso abrir os olhos para o futuro que dedicamos às próximas gerações. Não podemos ser tão solícitos com a fraude e a hipocrisia à nossa frente. Isso sem falar nas batidas policiais “comuns”, segundo os próprios delegados, que apreendem armas, drogas e alguns produtos piratas que logo no outro dia volta a “normalidade”.
A ilegalidade já está impregnada e pelas ordens políticas. Talvez para não causar desentendimentos, desempregos e perder eleitores, o Governo Municipal e suas Secretarias responsáveis fingem não ver e até contribuem – como ocorreu quando houve um incêndio no local. Até parlamentares não tocam no assunto e a naturalidade com que visitam o local, já faz jus a falta de atitude em relação ao caso.
Mas quem é contra a pirataria com o discurso de ser a favor dos músicos, está muito enganado. Os próprios empresários deixam o CD, muitas vezes gravado ao vivo, sem registro e com baixo custo, para que o nome da banda se propague através da ilegalidade e depois voltam para conferir como está a vendagem. Inclusive muitas bandas de pagode, arrocha e forró se fizeram conhecer através da pirataria, para que com os shows consigam lucrar. A Prefeitura, Receita Federal, comerciantes, consumidores. Muitos reclamam, mas compram.
Podem falar comigo sobre números e estatísticas. Desemprego, pobreza, fome. Mas digo que a solução não está na ilegalidade ou na omissão. A saída se encontra nas políticas públicas, na educação, na geração de emprego e renda. No exemplo a ser seguido, se bem que muitos políticos ultimamente já não servem de exemplo para nada.
Não quero que nós feirenses ou moradores daqui nos habituemos a essa realidade transviada. É preciso reestruturar, fiscalizar e mesmo que não tenhamos mais um Feiraguai (talvez o nome nem seja mais esse) como estamos acostumados a ter, será uma vitória e uma regressão as nossas qualidades primordiais. A virtude.
Adson Sá é formado em Comunicação pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Editor-Chefe da Revista Única
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