Revista Única
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Viva o São João

O "forró eclético" dos festejos juninos. Coitado do Gonzagão!

A tradição, palavra que nos parece tão distante nos dias de hoje - quase uma utopia - sempre volta hipocritamente aos discursos populares nas férias de meio ou final de ano.

Não sou velho, até muito jovem para falar nesse assunto, mas, no que se refere a São João, já vivi por um período que se relacionou ao seu verdadeiro significado, hoje perdido nas prosas dos mais velhos e no vazio despretensioso das cidadezinhas do interior do nordeste (me refiro àquelas cidades em que a “indústria junina” não chegou ainda).

As bandeirolas nas ruas, festas bairristas e até as famosas quadrilhas colegiais estão se extinguindo e virando capítulos de livros folclóricos. O que outrora se via, afirmo que existiam em Feira de Santana, famílias reunidas ao redor da fogueira, bebendo licor, contando histórias e degustando um bolo ou uma pamonha dessas que ouvimos o vendedor gritar, atualmente se encontram apenas na imaginação do povo, inclusive dessa pessoa que vos escreve. 

Cabe nesse texto lembrar um momento intrigante desse último São João, quando eu estava na minha casa, em frente à fogueira – ressalto que só havia essa na rua -, na qual por vezes eu assava um milho, e um vizinho se aproximou, comendo um pastel de forno e sugando pelo canudo um refrigerante de laranja, soltando uma frase por mim esquecida: “o São João passou por aqui?”. Como assim o São João passou por aqui? O Santo não vem por essas bandas há tempos...

Fora isso, evidentemente que o convidei para comer algo e conversar sobre besteiras. Tempo, trabalho, reclamar do barulho de algumas bombas, fim do mundo, essas coisas. Porém, o perturbador é que até o ato de ir à casa dos vizinhos já se desfez nas folias “carnavalescas” do São João. Na festa custosa e sem cultura.

Forró, arrasta-pé, xote e baião quase não se ouvem mais, dando lugar a uma mistura musical de doer os ouvidos dos mais tradicionalistas. É a lambada que dizem que é forró, é axé, é pagode, sertanejo, arrocha, e creio que o que menos ouvimos é o verdadeiro clássico Gonzaguiano. Longe de querer exercer o conservadorismo musical, mas um pouco de respeito à originalidade tem que ser exigido.

Talvez com essa idéia, os vereadores de Feira aprovaram (em primeira discussão) a presença do forró, e apenas do forró, no período junino (o velho e bom Luiz Gonzaga deixou um pouco de se revirar na cova). Ao invés de gastar rios de dinheiro público em atrações que não tem significado nenhum, agora o governo vai passar a investir nas bandas regionais, em artistas da terra que tocam o som com qualidade e competência, fazendo crescer a cultura local e valorizando a tradição de uma das poucas datas do ano que se pode exigir isso.

Mas, por enquanto, dancemos ao som de Leonardo e Raça Negra. Viva o São João! Viva a alegria popular e o ópio do povo!   

Postado em 04/07/2009

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