Horácio fizera o ginásio naquele tempo em que o cinema brasileiro fazia sucesso porque o povo era analfabeto e sem bolsa-família, e como não podia ler os filmes estrangeiros legendados, enchia as salas de projeção para ver o Mazzaropi, e as chanchadas da Atlântida.
Ter o ginásio era troço pra caramba. Não existia o ora Conselho de Classe que aprova se a mãe vai lá e pede para o filho reprovado passar, sob o argumento que graças ao Enem ele já está com um pé na faculdade.
O ginásio foi o cavalo de batalha do Horácio. Prestou concurso para o Banco do Brasil e como à época o tal banco pagava aos tubos, o que sobrava investia em ações do BB e da Petrobrás. O décimo terceiro ia para a Vale do Rio Doce.
Aposentado, recebe pelo INSS mais a aposentadoria complementar. Assim vive como um Lorde em uma aprazível casa em Lajeado de Macaé, cidadezinha que ninguém nem sabe que existe.
Horácio estava naquela de que de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco, e tinha um sonho: tocar surdo maracanã na bateria da escola de samba local.
Começou por baixo raspando reco-reco. Cinco carnavais só de reco-reco. Depois entrou na vaga do agogô; aquela campainha de pescoço de vaca, sem badalo. Mas a vaga de surdo maracanã estava comprometida com o pessoal do tráfico. Quê fazer?
Um dia – sempre tem um dia – era festa na Escola Municipal e o caçula do nosso bom Horácio ia receber o Diploma do Curso Elementar. Tirara o primeiro lugar com a média final, que vai de zero a dez, quatro vírgula oito. Um assombro.
Entre as apresentações artísticas do evento Horácio executou um solo de agogô em si bemol menor. Arranjo do próprio.
Eis que de repente, não mais que de repente adentra ao recinto, ela: Gessy, num tremendo topless.
Os da mesa diretora fizeram oh! As autoridades civis, militares e eclesiásticas fizeram oh! E a marmanjada fez um escarcéu dos diabos. Gritavam em coro:
- Fafá! Fafá! Fafá de Belém; Fafá! Fafá! Fafá de Belém...
Explicando o inexplicável: pobre tem mania de pôr nos filhos nomes de produtos anunciados na tevê. Assim fez o Horácio. Gessy era a pasta de dente filha dele; os filhos, um se chamava Anderson e o que ora se formava, Clayton, indústria inglesa de margarina.
Quando a Polícia chegou o Delegado tirou a bandeira municipal do mastro e cobriu os seios desnudos da Gessy, que nessa altura dos acontecimentos chorava mais que carpideira em velório.
Foi aí que o Promotor de Justiça chegou para o Delegado e meteu bronca: o senhor tem que prender todos os rapazes, por assédio sexual. O Delegado tentou ponderar que a gurizada não tinha poder de mando superior face à mocinha, mas aí o Prefeito interveio e emendou o soneto: mas houve crime de discriminação. A moçoila foi achincalhada! O Delegado argumentou mais uma vez dizendo que a garotada era menor de idade, e menor não comete crime.
Aí o Juiz de Direito mandou prender o Diretor da escola.
No outro dia isso deu no jornalzinho da cidade, em todos os jornais do Estado e nos principais jornais do país e do mundo.
Gessy recebeu da câmara dos vereadores um plano vitalício de saúde para fazer um rigoroso tratamento psicológico num Spa de luxo.
No escritório de seu empresário chovia pedidos para ela ser entrevistada pela televisão. Cachê altíssimo. Coisa de louco.
O secretário de justiça exigia que os pais dos alunos algazarristas fossem enquadrados em crime.
Eis que saltando de seu modesto Audi TT Roadster, elegantérrimo em seu indefectível terno de linho branco e chapéu panamá, sem pedir licença coisa e tal, entra no escritório do empresário artístico da vítima Gessy, ele, o presidente da maior escola de samba da cidade do Rio de Janeiro.
- Quanto é para a diva ginalolobrigiana desfilar como rainha da bateria da minha escola de samba? Eu pago o dobro do que pagam para a Luma de Oliveira!
Contrato assinado, parte do dinheiro adiantado, foi uma festa na casa do Seo Horácio. Patrulhinha na porta desde o incidente.
Foi aí que o pai da ninfeta desvairada ousou formular um único e pequeno pedido:
- Gessy minha filha, pede para o bicheiro deixar “eu” tocar surdo maracanã na bateria da escola dele. Você pode fazer isso pelo seu pai?
Foi aí que a estrela nacional da hora, já capa da Revista Play-Play, olhou bem nos olhos do pai sonhador e soltou a pérola:
- Pai, se isso for muito importante para você, eu peço; mas vê que vou queimar um cartucho com o cara. Quando eu tiver que pedir outra coisa, já torrei um pedido. Isso é muito importante para você?
O pai respondeu que não; que pensando bem, até que era uma bobagem.
E foi chorar escondido no banheiro.
Postado em 13/01/2010