Dois padres enchiam o saco do bispo diocesano querendo cada um ser o novo vigário de uma paróquia recém-criada. O bispo, experiente véio de guerra, chamou os dois e deu uma missão. Eles iriam à Polinésia fazer uma reportagem para o canal de televisão alternativo do arcebispado. Como todo jornal da tela, a coisa não precisava ter crédito de verdadeira, mas tinha que dar Ibope. A reportagem com maior audiência televisiva levaria seu autor ao posto de vigário.
Uma vez transformados em “âncoras” foi assim que o Padre Elias Bernardes e Boris Scarloff foram à luta. Resolveram produzir juntos uma única pesquisa e depois cada um dar sua versão pessoal aos fatos.
A Polinésia, como aprendemos no ginásio e nunca mais nos esquecemos, é (ou são) um conjunto de ilhas; dentre elas o Havaí, Estado Americano e não subúrbio de Maiame como muita gente pensa, e a ilha de Páscoa, aquela que tem esculpido em pedra o Congresso Nacional: todos com a mesma cara e sem coração.
Ainda segundo a professora do segundo grau, poli vem do grego, muitas e nísia quer dizer ilhas. Até aí tudo bem. Todavia dentre centenas, quiçá milhares delas, formadas por erupções vulcânicas e recifes de corais, tem uma de suma importância: é a Ilha de Safo. E de mala e cuia nossos padres-repórteres foram para lá.
A origem de seu nome é controverso. Uns dizem que vem da língua dos primitivos habitantes e quer dizer “terra do bambu doce”; outros afirmam que tal nome é uma corruptela da língua nativa que significa “onde a classe média sofre”.
O caso é que do muito apurado pelos sacros repórteres ficou resumido o seguinte: na realidade a Ilha de Safo tinha esse nome porque seu povo nativo era safo, esperto o suficiente para sobreviver, não obstante o governo que tinha. Somavam vinte por cento da atual população. Os outros oitenta por cento são descendentes dos imigrantes que vieram se safando das erupções vulcânicas de suas primitivas ilhas vizinhas. Assim uns poucos afirmavam – havia controvérsia - que vinte por cento da população era formada de safos, mais oitenta por cento de safados.
Ainda lembrando da aula de geografia, a cana de açúcar é nativa da Polinésia, ou da Índia, ali ao lado. Lá a cuja dita nascia igual capim.
Safo tinha um rio chamado da integração nacional, porque nascia na cidade de Safópolis, capital do reino, e ao invés de descer, subia cortando toda a extensão da ilha e ia desaguar no mar, junto duma terra fértil, numa humilde e pobre aldeiazinha de nome Massapé, onde ninguém queria morar.
Mas na cidade de Safópolis, nascente, tinha tanta cana que o povo levava a vida inteira cortando e jogando dentro do rio, na intenção de ganhar espaço para tocar suas vidas.
A cana trazida pelas águas, vinha batendo nas pedras e chegava à aldeia de Garapa num caldo de cor esverdeada e paladar muito apreciado. Por onde as águas do rio levavam o derivado da cana, a população ribeirinha tirava dali sua atividade econômica e consequentemente seu sustento. Garapa possuía um povoado feliz. O rio continuava e suas águas entravam num clima supertropical e a garapa no rio então evaporava e virava num xarope ou melado ao passar por Refinado, Cristal, Mascavo, Demerara e Rapadura, prósperos cantões da ilha.
Dali para frente o melaço fermentava e na cidade de Merino virava rum, que todo mundo pensa que é um destilado, mas não é.
Agora sim: destilado pelo sol, o melaço trazido pelas águas do rio virava álcool, o qual supria as farmácias, os hospitais e os lares de toda a ilha.
O resíduo final era o vinhoto que servia de excelente adubo para a rudimentar agricultura familiar.
Evidentemente Safo era uma ilha doce.
Mas como tudo o que é bom dura pouco, a cana foi escasseando para dar lugar à plantação de florestas e cerrados, naquele capitalismo inconseqüente e selvagem, e os ilhéus tiveram que buscar alternativas...
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Postado em 12/12/2009