PELADA FUTEBOL CLUBE

Crônicas de Floriano Lott

Os descompromissados encheram o pequeno cemitério daquela cidadezinha pobre, a beira-mar, para prestar a última homenagem à cafetina Maria Pelada, eterna dona da Boate Luz Vermelha.
Restou aos bem casados reunirem-se no Bar do Gentil, uma cobertura de palha debruçada nas pedras em que as ondas vinham arrebentar nelas. O assunto era um só. Como homenagear a cafetina mais carismática do Praião da Gávea? Um nome de rua? O nome dela na Praça da Prefeitura?Uma estátua? Sim, mas quem, casado, tomaria partido sem que os moralistas de plantão não caíssem em cima, de reprovação.
O caso mais sério seria a reação da cara-metade, em casa. Aí é que a coisa pegava.
Eis que de repente, não mais que de repente surge vindo do dono do bar a idéia iluminada.
- O pessoal não joga bola aqui na praia? Pois vamos fincar duas balizas do tamanho oficial e oficializar nossa pelada; inscrição no campeonato intermunicipal e o diabo a quatro. A gente põe o nome do time e do clube de Pelada Futebol Clube, e sutilmente a Maria Pelada é homenageada.
A idéia foi aprovada por aclamação e virou lei, que virou sociedade esportiva.
O presidente do clube, como não podia deixar de ser, era o prefeito, que era médico proprietário da única casa de saúde do município e dono da fábrica de cimento armado, única fornecedora de material de construção para o povo e para a prefeitura. Mas no clube quem manobrava mesmo era o Gentil, o faz-tudo e técnico do time. Ninguém sabia, nem nunca cogitou saber o nome todo dele. Diziam que ele era sargento aposentado da marinha de guerra. Sargento Cardoso.
-Seo Gentil, a “Confederação” diz que vai vetar nosso campo se não revitalizarmos o nascimento da grama, e não apararmos “ela”. A gente não tem dinheiro pra isso.
- Põe os carneiros do Eustáquio para pastarem no campo; aparam e fertilizam ao mesmo tempo.
Antes de começar o jogo, as instruções: quem se desloca, recebe; quem pede tem preferência.
- Se a defesa está em perigo, chuta pra cima; enquanto a bola está no alto não há perigo de gol.
Acontece que o Adrivano, o homem gol do time, artilheiro da Liga, estava pisando na bola.
Faltava aos treinos e até ao jogo. Se aparecia, chegava atrasado. E o futebol dele foi se indo, foi se indo e quase se foi de todo. Era a malvada pinga.
Foi aí que o prefeito presidente do clube e médico, botou a clínica dele à disposição do Adrivano: psicólogo, desintoxicação dos pulmões, rins e fígado; diálise, terapia de quelação, acupuntura e desintoxicação hospitalar.
Novinho em folha, Adrivano voltou a marcar. Jogava pra caramba.
Até voltar à “marvada” pinga, e se acabar novamente.
O psicólogo garantiu que a cura definitiva só se daria quando se soubesse ao certo por que Adrivano bebia, mas o craque guardava este segredo a sete chaves. Perguntado, não falava nada.
Só se sabia uma coisa: Adrivano bebia mais que carro de Fórmula-1.
Um dia – sempre tem um dia – Gentil, o faz-tudo, estava num parque de diversões que lá se chama mafuá e assistiu a uma cena assaz hilariante: um hipnotizador. O cara ficava num camarim de terceira categoria, a gente comprava um ticket que antes se chamava entrada e o sacripanta hipnotizava o freguês e o cujo dito botava tudo para fora. Só respondia a verdade. Verdade verdadeira; pura verdade.
Perguntado quanto cobraria para tirar do Adrivano o verdadeiro motivo de sua cachaçada, o hipnotizador pediu mil reais, baixou para quinhentos e foi por cinqüenta pratas.
Nas dependências da casa de saúde, assistido pelo prefeito médico, por um psicólogo, pelo seu empresário, bem como seu advogado, Adrivano topou submeter-se à sessão hipnótica.
O “do parque” tirou da algibeira um velho relógio de bolso e segurando pela extremidade da corrente, balançava pra lá e pra cá na cara do paciente.
- Pensar... Pensar...Pensar...
 - Adrivano, você está em transe; está dormindo; está flutuando nas nuvens; você está leve e solto. Agora me diga: por que que você bebe? Diga Adrivano: por que você bebe?
Foi aí que para espanto geral, Adrivano abriu a boca e soltou a pérola:
- Eu bebo porque é líquido. Se fosse sólido eu comia. Se fosse gás eu cheirava.
O prefeito meteu a mão no bolso e deu dois mil reais ao hipnotizador.

Postado em 27/10/2009

 

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