"Cultura de paz é ainda um assunto sem potência social"

Entrevista com Clóvis Nunes

O simpático Clóvis Souza Nunes, coordenador Nacional do Movimento Internacional pela Paz e Não-Violência (MovPaz), fez as honras da casa e foi logo se acomodando na cadeira para a entrevista, realizada na Casa da Paz localizada no conjunto Feira V. Como o próprio Clóvis diz, lá tudo o que você vê foi feito de material reciclado. O forro está pelo avesso porque o outro lado está todo furado, as bancadas são portas de construção civil viradas para baixo, a estante ia ser jogada fora pelo antigo dono e foi reaproveitada, e por aí vai. “Sede reciclada fazendo o espírito da construção da Paz”.  O MovPAz é uma organização Não-Governamental que em 2009 comemora 17 anos de fundação e constitui-se em um movimento para construir a paz em uma sociedade que valoriza os heróis de guerra. Ao som de um celular que não parava de tocar, Clóvis concedeu a seguinte entrevista à Única Virtual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Única – Qual é a importância de uma Casa da Paz?

Clóvis – Ter Casas da Paz na cidade é muito importante para se construir políticas públicas na prevenção da violência. Essa Casa da Paz não é ainda a ideal, mas pelo menos ela está viva. Aqui gerenciamos os projetos como o “Educação pela Paz nas Escolas”, multiplicamos o movimento, produzimos a caminhada da paz. É daqui que saem as idéias que vão neutralizar as nascentes de violência. Nós que trabalhamos pela paz não acreditamos que o confronto soluciona a violência, muito menos como condição de construção da paz. O combate é importante, mas é sintomatológico, porque ele atua no mundo do efeito e não na causa, ou seja, quando vai combater a violência já esta tarde demais porque ela já está instalada. Então os governos gastam fortunas no combate e no confronto, mas não investe na prevenção. É muito mais barato construir ações em favor da paz do que gastar uma fortuna em segurança pública. O governo brasileiro aplicou no ano passado R$ 43 bilhões por conta da violência no Brasil. Isso é 6 vezes o orçamento da ciência e tecnologia e 36 vezes o dinheiro do Projeto Fome Zero. Para se ter uma idéia, metade do orçamento do Ministério da Saúde é gasto em pacientes vítimas de arma de fogo. Então temos que investir profundamente na cultura de paz. Só que isso é um tema novo na agenda dos governos, na agenda dos empresários, é uma palavra nova na imprensa, é uma conversa nova, inclusive, no imaginário dos professores. Cultura de paz é ainda um assunto sem potência social.

Única – Que contribuição a Casa da Paz deu a Feira de Santana?

Clóvis - Muitas coisas dão para ser percebida a curto, médio e longo prazo em Feira de Santana. Hoje nós temos a cultura de paz bastante disseminada e Feira é uma cidade que está exportando isso. O prefeito atual  está com a intenção de criar a 1ª Secretaria de Cultura de Paz e Prevenção à Violência. Acreditamos que essa motivação se deve a todos esses anos de caminhada pela paz e de discussões que tivemos com ele antes da eleição. Nós escrevemos essa idéia de secretarias de cultura de paz e prevenção à violência há 10 anos. Essa secretaria com certeza será multiplicada no Brasil e Tarcízio Pimenta teve a coragem de ser o primeiro gestor a enfrentar a discussão em nossa cidade.

Única – Então a Cultura de Paz passa a ter importância para os Governos?

Clóvis - Há 50 anos quando se falou em criar as primeiras secretarias de meio-ambiente, quando os ecologistas visitavam os Governos, todos levantavam as sobrancelhas e achavam isso uma utopia, hoje não existe um governo no mundo que não tenha uma secretaria ou um ministério do meio-ambiente. A mesma coisa foram os direitos humanos, 60 anos atrás quando se falava em direitos civis e os governos mundiais foram visitados com essa idéia, muita gente não acreditava nisso. Hoje, todos os governos e assembléias legislativas têm secretarias e comissões de direitos humanos. A cultura de paz e não violência também segue esse caminho. Com certeza vai ser multiplicada, pois, é uma secretaria essencial, de articulação, de produção cultural que vai desconstruir a cultura da violência, que é a tônica que move o mundo. É uma secretaria que vai influenciar em outras secretarias, principalmente de educação e segurança pública, quebrando paradigmas que não sejam os do combate e enfrentamento, relacionando com as novas estruturas de não-violência.     

Única – Qual a importância tem a ONG MovPaz nesse movimento de não-violência? 

Clóvis - O Movpaz está envolvido junto com o ministério da Justiça nesses 17 anos. Nós conseguimos chegar dentro dos governos de outros Estados e agora do Governo Federal que estamos a 4 anos juntos. Participamos da elaboração do Estatuto do desarmamento desde o começo. A 1ª barraca de entrega de armas do Brasil foi feita em Feira de Santana, do lado da Prefeitura, em 1998. Quando a gente foi pedir uma audiência com o ministro da Justiça (Renan Calheiros), na época quem conseguiu foi José Ronaldo ainda Deputado Federal, porque o comandante do exército não podia armar uma barraca na rua sem uma autorização do ministério, uma vez que ninguém tinha feito isso antes. Arrecadamos 36 armas em 12 dias, saiu nos jornais de Feira e mandamos cópias para várias entidades do Brasil. O “Sou da Paz” que é uma ONG do Rio de Janeiro começou a produzir a idéia e o “Viva Rio” também abraçou, de repente a campanha de entrega de armas tomou o Brasil todo. É importante que as pessoas saibam que esse Estatuto não foi pensado pelo governo, mas foi um resultado do esforço de 46 ONGs no país, que viajaram, se encontraram e pesquisaram o problema.

Única – Em qual nível se encontra a violência no Brasil?

Clóvis - O Brasil apareceu no Hall da ONU como o país que mais mata no mundo. Nós somos, em números absolutos, campeão por homicídios com armas de fogo do planeta. Nos últimos 10 anos foram mortos perto de 500 mil brasileiros. Em tempos de paz matamos mais que em muitos países com guerra declarada. A guerra do Iraque, por exemplo, em sete anos foram mortos cerca de 40 mil pessoas. Então é menos arriscado vestir a farda do exército e combater no Iraque, com homens bombas, granadas e todo o conflito, do que andar no Brasil.

Única – Como atua o projeto “Educação pela Paz nas Escolas”?

Clóvis - Nós somos uma ONG com 21 ações e a que considero o coração do movimento é o projeto “Educação pela Paz nas Escolas”. São 575 escolas pelo Brasil e, dessas escolas, já capacitamos mais de 7 mil profissionais da educação e já ultrapassamos o universo de 520 mil estudantes que tem contato direto com a cultura de paz. Elaboramos um kit com 35 peças pedagógicas e criamos um programa, de segunda a sexta, na qual os professores deixam de lecionar suas disciplinas e passam a ensinar a cultura de paz. Nós abordamos a paz em três segmentos: social, ambiental e a paz interior. A social é a paz do indivíduo com o outro. A ambiental é a do indivíduo com o meio onde ele vive, não só o meio-ambiente ecológico, mas também o urbano. E a paz interior é aquele do indivíduo consigo mesmo, com sua realidade, seus conflitos e suas superações. O grande desafio foi “pedagogizar” isso.

Única – Por quê?

Clóvis - No ocidente há uma cultura de violência excludente. Excluímos os heróis da paz das escolas e preferimos os guerreiros matadores. Os heróis das escolas são os homens envolvidos em conflitos revolucionários, como Duque de Caxias que acabou com o Paraguai, Mem de Sá que matou índios, Alexandre - o Grande, Napoleão e os “Cézares”. Todos foram sanguinários, invasores, saqueadores, mas, a gente não estuda os pacifistas. As escolas não ensinam sobre Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Chico Xavier, Francisco de Assis, e esses seres que representam a excelência humana e estão fora da sala. Mas, isso ocorre porque o currículo escolar é fundamentado na força e na cultura de violência, e esse currículo está falido no que se refere a valores dos direitos humanos. Por isso que você vê que as escolas não fizeram seres humanos melhores, essa violência que está no mundo também é fruto das estruturas escolares. Por trás das bombas, das fábricas de armamentos, estão engenheiros, físicos e técnicos que passaram pelas escolas. Químicos que se dedicam a produzir fórmulas para matar. Na destruição do meio-ambiente estão empresários que esteve na sala de aula. Atrás do crime do aborto estão médicos, enfermeiros que também passaram pelas escolas. Então por que não melhoraram essas pessoas? Porque não tem cultura de paz dentro do seu conteúdo pedagógico. Então bolamos um programa para ocupar essa lacuna. Pelo menos uma vez por ano a gente vai para as escolas para refletir sobre a natureza, a sociedade e sobre ele mesmo. As escolas deveriam produzir seres humanos melhores, com valores éticos. Atualmente ela está preparando o estudante para vida, mas não para viver.

Única – No que consiste esse projeto para mudar a mentalidade dos professores?

Clóvis - Esse programa é uma revolução silenciosa. Ele acorda o sonho do professor em ser educador. O professor que está no mundo se transformou muito mais em reprodutor autoritário do conhecimento do que educador. As escolas quase não educam, elas só instruem. O que a escola faz é encher a cabeça dos alunos de informação, mas não trabalha o sentimento deles, não forma o caráter e não tira de dentro os valores. Daí as escolas estão repletas de violência. Hoje você tem professores sofrendo de fobia escolar e cada vez mais saindo das escolas.  Em uma pesquisa recente da UNESCO mostrou que 82% dos alunos não gostam da escola e 68% dos professores também não gostam.  Então a escola precisa renovar. Nos últimos anos com a tecnologia quase tudo mudou, só a maneira de ensinar e aprender que permaneceu estática.
Antigamente o único meio de socialização que tínhamos era a escola. Nos anos 60 e 70, por exemplo, nós saímos de casa sem nada e encontrávamos na sala de aula quase tudo. Aí depois veio a televisão e outros meios de socialização. Hoje qualquer estudante que tenha TV a cabo em casa, internet e revistas, sai de casa com muita mais informação do que ele vai encontrar nas escolas. E informações, inclusive, mais bem construídas e pedagogicamente mais equilibradas. Se você assiste a “History” ou o “Discovery Channel”, você aprende muita mais história, muita mais sobre certos temas escolares do que na sala de aula durante o ano todo. Temos que mudar isso. Então o nosso programa faz uma mudança silenciosa na cabeça do professor, depois isso chega até os alunos e alcança também os gestores escolares.      

Única – Dentro desse projeto existe uma mudança de conceito no que se refere à utilização da paz como verbo e não mais como substantivo.  O que é isso muda?  

Clóvis - Nós lançamos uma atividade que é a capacitação para perceber a paz como verbo, porque as escolas ensinaram paz a vida inteira como substantivo e aí, eu descobri no dicionário, que a paz é o verbo intransitivo pazear. Na literatura brasileira ninguém nunca citou esse verbo. A grande mudança é que na língua portuguesa não existe verbo sem ação, então, se paz é verbo, o conceito que nós temos dele é equivocado. Porque o que pensamos é que paz como substantivo é relativo a calma e tranqüilidade, o que na verdade é um efeito da paz. Ela é movimento, atividade, construção. Estamos dando vida, tirando ela da invisibilidade, trazendo para a paz o conceito de socialização.  

Única – Como está o progresso desse projeto em Feira de Santana?

Clóvis - Estamos chegando esse ano em Feira, entramos com pelo menos 150 escolas do município e alguns colégios agregados, como o Colégio da Polícia Militar, Santo Antônio e Criativa. Sempre foi um sonho chegar ao coração da rede das escolas do município. Esse programa marca a gestão de qualquer prefeito e secretário, porque é a única coisa nova dos últimos 50 anos que faz alguma diferença na educação tradicional. Essa é a nossa ação que consideramos mais importante, dentre todos outros projetos.

Única – E a caminhada da Paz?

Clóvis - Para explicar a caminhada podemos relacionar com um time de futebol. O time concentra, treina, joga, ganha, viaja, trabalha, concentra novamente, joga, ganha. Aí no dia em que ele ganha a taça, celebra a vitória com uma volta olímpica no campo. A caminhada para gente é essa volta olímpica, é a celebração de tudo o que a gente fez no ano.

Fonte: Revista Unica Virtual / Postado em 12/06/2009

 

 

 

 
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