Reintegração de Posse

Sociedade dos Literatos

Tudo começa em uma grande cidade, onde Severiano, homem de pouco estudo, mas de muita poesia no olhar, acorda para mais um dia em sua grande luta. Não é preciso muito para entender este cidadão que de tanta peleja já não esconde mais a fachada de sua morada. Ao acordar, refletido o horizonte em seu olhar, revela-se apenas a rua. Rua sem teto e sem aconchego, onde carros passam e milhares caminham de lá para cá. Severiano mora mais ou menos no fim da rua, bem no finzinho, não pegou o melhor lugar, chegou depois, depois de Índio, o primeiro morador da rua. Bem ali no começo Índio passa seus dias, quase sempre de pé, ereto. - Engraçada a posição dele. É o que comenta quem passa. Mas é bem dessa forma que o Índio percebe e tenta entender a passagem do mundo ao seu redor, bem ali, de pé, girando para um lado e para o outro preso a um ponto fixo, ele percebe burrice. Mas como poderia logo o Índio, o morador, mas antigo e grosseiro da rua perceber a tal da burrice?! Simples. De pé naquele único ponto, girando sempre ao próprio redor, deixa que seu olhar tão castigado, mas ainda sagaz perceba as mesmas pessoas, perceba os mesmos momentos, são vozes ao seu redor, amores, brigas, conquistas, buzinas, cantadas de pneus, tantos sons, tantos barulhos e signos. Guerra! Todos, ecoando uma única fala aos ouvidos do Índio.
-Somos todos iguais. Iguais e diferentes, mais ou menos o que pensa Negro, personagem central, digo central porque vive no meio da rua, literalmente no meio da rua.  Chegou depois do Índio e antes de Severiano, e logo percebendo que algo havia de errado resolveu fazer um protesto. Bem ali no meio Negro se pintou e disse: - Se minha cor fosse esta eu chamaria mais atenção, se minha cor fosse esta, não me chamariam a atenção, se minha cor fosse esta não iriam me querer fora daqui, se minha cor fosse esta, iriam apenas querer me calar. Calaram os brancos e deram a eles apenas a mesmice que o Índio percebe, calaram os bons brancos como Severiano, agora o pobre só fala pelo olhar, tentaram também me calar, mas eu me pintei e vim parar aqui, minha cor fala por si, e mesmo pintado de ouro não se deixem enganar, ainda sou negro e meu povo é forte, tenho Índio e tenho Severiano, temos conosco milhares, vivemos da rua, essa é a nossa morada. Então Negro se cala enquanto a noite surge também silenciosa.

por ÍCARO DE OLIVEIRA

icarodeoliveira@hotmail.com

Postado em 12/04/2009

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