E Aconteceu Na América   

Sociedade dos Literatos

- Pai, já me decidi: eu quero ser advogada. Conhecer todas as Leis do meu país.

- Taí, tem todo o meu apoio; vou “te” mandar para os Esteites. Vai ser a melhor advogada do Brasil.

- Pai, pô! Como é que eu vou estudar leis do Brasil no exterior?

Pouco tempo depois Linda Brum, ou Lindabum como os rapazes a chamavam - por motivos óbvios - embarcava em um dos Learjet de seu pai rumo à universidade de Santa Mônica, Califórnia; do outro lado do brejo da cidade de San Francisco, como dizia ele.

- Alô pai, probleminha com meu visto de estudante. Que raios de despachante você contratou? Vou ser deportada pai. Paizão, eu não nasci em alto mar e o primeiro porto que seu iate atracou não foi no “Rauái?”. Então eu sou americana nata, pô!

- Rauái o cacete! Creuzinha sua mãe só “te” falava besteira. Você aportou no Havaí! “Tua” mãe fez o pós-parto lá.

A festa de formatura foi no mesmíssimo lugar que a seleção brasileira se concentrou na copa de noventa e quatro. Romário, Bebeto e companhia. Papai Guarabira - o doutor Guará - todo prosa.

- Vai voltar sim. Eu arranjo uma adaptação para você na Ordem dos Advogados. Tenho amigos lá.

Mas Lindabum ficou. Escritório que tomava um andar inteiro do imponente Edifício Transamérica. Tudo dela. Quinze assessores, a maioria juízes ou professores aposentados.

- Doutora, eu vim aqui porque me disseram que você (you) tanto conhece as leis como também os juízes que vão julgar o caso. Negócio seguinte: sou perito contador, trabalho para o Transbic Bank e minha principal função é cuidar do caixa dois; enviar seu dinheiro para a lavagem e retorná-lo como aplicação de capital estrangeiro. Acontece que eu estava apavorado com minhas dívidas junto aos agiotas – corrida de cavalos - e dei um desfalque; quer dizer: roubei cinco milhões de dólares. Besteira, pois logo após a burrada recebi uma oferta de emprego para ganhar cinco vezes mais no Biligate Bank. Depois de amanhã é o balancete, inclusive do caixa dois. Eu quero que você me defenda. Ainda tenho sobra do desfalque; posso pagar seus honorários. Se faltar, juro que quando sair da prisão pago o restante.

- Juanito, escuta o que vou dizer: você nem sabe se vai ser julgado, então não fale em condenação. Depois, no Transbic nunca existiu caixa dois: é dinheiro não contabilizado. Se corrigir a declaração do imposto de renda e pagar o que por engano foi sonegado, está tudo certo. A aplicação vinda do exterior sempre é bem-vinda pelo FED, banco central americano, pois fortalece a nossa moeda, o que interessa ao mundo. Na mesma linha de raciocínio você não deu desfalque algum, pois é o encarregado de movimentar o dinheiro. Assim sendo os cinco milhões foram contabilizados numa conta errada por puro equívoco. Quanto é que você ainda pode desfalcar?

- Mais ou menos um bilhão de dólares.

- Faz o seguinte: desvia novecentos e noventa e cinco milhões para minha conta numerada nas Bahamas e voa para o Rio de Janeiro. É como todos fazem. Amanhã eu vou falar com o departamento jurídico do Transbic. Ah! E quando falar comigo use a língua de seus pais: o espanhol.

- Linda! Que bons ventos a traz aqui? Sente-se, por favor. Quer um café ou um drink?

- Obrigada. Só desejo lhe falar o seguinte: meu cliente, o Juanito, deu um desfalque de um bilhão de dólares em vocês. Amanhã é o balancete; vai aparecer.  Nessa altura dos acontecimentos ele está viajando para o Irã. Neca de extradição para a América. Faço um acordo: ele devolve oitocentos milhões e vocês dão uma carta de apresentação dirigida ao diretor presidente do Biligate Bank, seu novo empregador, abonando sua honestidade e integridade moral. É tudo ou nada; pegar ou largar.

- Alô paizão! Sei de um excelente negócio aqui. Mas é coisa de duzentos milhões de dólares. Tenho só cem milhões, honorários de um acordo que acabo de fechar.

por FLORIANO LOTT

lottibus@gmail.com

Postado em 15/05/2009

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