De Como o Futebol deu Jeito no Brasil

Sociedade dos Literatos

Corria o ano de dois mil e dezesseis. O Congresso Nacional estava reunido para a votação mais importante de toda a sua existência: a revogação de nossa atual Constituição, e em seu lugar a adoção da Constituição da Venezuela. Hugo Chávez falava num pool de televisão para todo o Brasil, explicando que se isso não fosse aprovado, seria a falência do Estado Brasileiro e a condenação da população mais pobre à morte, por carência de sobrevivência, no que era plenamente compreendido pelos congressistas. A votação nem chegou ir a plenário; foi decidida por acordo de líderes.

Aplausos, aplausos, aplausos. Uma deputada gordinha dançou um joropo empolgado dentre as cadeiras. Oposição e situação se abraçavam efusivamente.

Terminada a sessão, todos os congressistas cantaram o Hino da Venezuela com a mão direita no peito e foram tranquilamente até ao Banco, e de lá para o aeroporto, tudo na mais santa paz; céu de brigadeiro.

Mas as torcidas organizadas não aceitaram o cambalacho e foram à luta.

Concomitantemente, o advogado Miguel Bisneto protocolava uma ação direta de inconstitucionalidade face a adoção da Constituição Venezuelana. Alegação: fora votada sem que um tradutor oficial a vertesse do castelhano para o português, ferindo assim a Lei Maior, à época ainda em vigor, partindo da premissa que nem todos os congressistas dominam o espanhol. Assim sendo, votaram sem saber em que votavam.

No Supremo o pedido de liminar foi prontamente negado. A inicial protocolada seria ao devido tempo motivo de estudo para verificar se o autor - um clube de futebol e regatas – seria parte legítima para postular a matéria, ou seja, se a ação seria ou não acolhida. Ademais a nova constituição já instituía o espanhol como a língua oficial pátria.

Fim de expediente, os onze do STF tranquilamente entraram em seus chapas-de-bronze tentado furar o bloqueio de oitenta e três mil integrantes da torcida do Flamengo que cercavam o palácio da mais alta Corte. E mais e mais camisas rubro-negras chegavam. Era de trem, de avião, de ônibus, de carro, de bicicleta, de moto, de apé (vindas do Paraná), à cavalo (vindas dos pampas), de jegue (vindas do nordeste) e de canoa pelo Paranoá, vindas da Amazônia. Como não sei; só sei que vinham. Meninos, eu vi.

Uma empresa terceirizada pela torcida “Raça Rubro-negra” instalava mil telões para acompanhamento da sentença dos Ministros, que é como se trata os Juízes do Supremo.

A torcida do Corinthians, cerca de duzentos mil pagantes (do IR), cercava o estúdio televisivo onde Chávez se encontrava; a totalidade da torcida do América-RJ ocupou a torre de comando do aeroporto de Brasília, impedindo os parlamentares de regressarem às suas casas; o Palácio do Planalto recebia ao seu redor um milhão de aficionados com a camisa da seleção brasileira. Revoltados, entoavam cantigas e palavras de ordem.

Impossibilitados pelo poviléu de seguirem para casa, os Ministros do Supremo resolveram voltar para suas mesas de trabalho e aproveitaram o serão para dirimir o equívoco quanto ao despacho proferido. Foi pedida nova explicação via celular para o Presidente do Legislativo, o qual - refém da torcida Jovem – esclareceu que a votação realizada no Congresso não fora para a adoção por nós da Constituição Venezuelana – como fundamentava a inicial e pensava o povo - e sim substituir a “construção das venezianas” dos apartamentos dos senhores deputados e senadores, sem ônus para os cofres públicos. A culpada da desinformação foi da imprensa.

Comunicava também que visto o Presidente da República - ora nos braços da torcida – ter renunciado à Presidência alegando motivo de foro íntimo - o Presidente do Supremo assumia a Presidência vaga, dissolvia o Congresso, e já marcava eleições gerais - proporcionais e majoritárias - para o dia seguinte.


Sonhar não custa nada.

por FLORIANO LOTT

Postado em 06/03/2009

Caro escritor, para ser um integrante da Sociedade dos Literatos é só mandar seus contos, crônicas e poemas para o e-mail: revistaunica@revistaunica.net com a sua devida indentificação.

Abraço

 

REVISTA ÚNICA
Editorial
Cadernos
Capa
Entrevista
Cidade

Educação

Pop Up!
Século XXI
Opinião
Links
Blog do Velame
UEFS
Tribuna Feirense
Sociedade dos Literatos
Colunistas

- Adson Sá

- Ederval Fernandes
- Mariana Figuerêdo
- Francklyn Roozewelt
- Rachel Pinto
Saiba onde tem o melhor preço antes de comprar