As Laranjeiras da Infância

Sociedade dos Literatos

Errante, seguia em disparada. Infantil, menino, propenso a erro, por entre laranjeiras e outras árvores do quintal de onde me criaram. Estava bastante confuso e mais: muito dolorido.

Trazia, recordo-me naturalmente, um pouco equivocado, a dor do mundo inteiro na imaturidade do meu coração. A morte da minha mãe. Esquivava-me sem sucesso das lembranças ternas para que não me machucasse ainda mais. A imagem maternal surgia de tempos em tempos em pequenas fotografias a cada vez que os meus olhos se cerravam numa tentativa de não ver a realidade. Pensava estar tudo errado; talvez estivesse de fato, mas a vida, como anos depois pude comprovar, é completamente errônea.

Na sala de estar da casa, por onde entrei – lembro-me perfeitamente -- com hesitação e ofegante, avistei meu pai de olhos lacrimejados frente ao corpo pálido, embora cuidadosamente maquilado. Agonias alheias dos vultos que nem ao menos os nomes me importam; o ar, o ambiente amarelado da luz precária; minha Avó em pranto. Tudo cravado em minha memória. Eu, filho único, em meio aquele triste instante, sentia um golpe seco e forte ecoar na estrutura pífia do meu esqueleto, uma dor tão profunda e aguda que aniquilava o sentido e promovia-se infinitamente a condição de minha companheira. Meu corpo era tão digno de pena que, ao dormir, minha mãe em outros tempos tinha o cuidado de colocar debaixo do meu travesseiro uma vela caso já não acordasse no dia seguinte. Era muito anêmico, como qualquer pobre alma.

O olhar de censura do Pai fez com que eu fugisse: volto ao quintal e ao fim de tarde de ar difícil. Passo pelo quarto da minha mãe e ainda sinto o cheiro de sândalo misturar-se a pouca essência dela espalhada e invisível do ambiente. Ao chegar ao quintal, as laranjeiras apaziguam-me com sua paz melancólica de quem aceita tudo com passividade e pesar. Medo não tenho, apenas solidão.

Eu, filho único, escondido no quintal entre laranjeiras pesarosas. Eu, filho único, misteriosamente só e condenado a viver com meu maior inimigo: meu pai.

por EDERVAL FERNANDES

ederval.fernades@gmail.com

Postado em 07/06/2009

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