Sociedade dos Literatos
Ele fazia parte daquele um por cento dos brasileiros: rico, muito rico, desses que nunca precisou pagar propina a ninguém. E olha que ele mandava. Mandar é apelido. Tratava as mais altas autoridades por tu e as chamava pelo primeiro nome. E elas vinham.
Só voava em seus aviões. Quando havia possibilidade de pouso, usava um Tri-jato Boeing que era o seu xodó.Tripulação inclusa.
Estava em uma cidadezinha no norte do Paraná verificando a safra de café de algumas de suas fazendas, mais precisamente na porta do seu escritório barra dois, ou seja, na uisqueria local, copo na mão, olhar correndo a Praça, quando saindo da igreja uma noviça e em passando à sua frente, ele parou na dela.
Retrocedeu, pousou o copo sobre um disquete que fazia às vezes de porta-copo e foi ao encontro dela.
Cara a cara disparou: vai ser boa assim lá em casa!
-Que é isso moço? Respeita-me, eu sou religiosa...
-Religiosa não, você é uma santa. Santa, ouviu? Santa!
A noviça deu meia-volta, toda corada, e correndo, correndo, voltou de onde viera.
Realmente era muito linda. Se somasse a Vera Ficher mais a Tereza Collor, no tempo em que elas eram mocinhas e elevasse tudo à enésima potência, podia até empatar, ganhar não.
O fato é que dali para frente a noviça só saia à rua escoltada pela Madre Superiora que era, como de se esperar, de cara fechada, austera, mas que na opinião dos que cumpriam expediente na porta do bar, tinha um corpinho que ainda agüentava meia-sola.
Passado algum tempo o nosso homem rico voltou à cidadezinha. Foi ao Banco, onde fez uma pequena aplicação de alguns milhões de euros - ele só transacionava em euros, dizia que dólar era coisa de classe média - esteve no Cartório, onde o Tabelião o recebeu com tapinhas nas costas, e como não podia deixar de ser, fechou a agenda bebericando.
- Lá vêm elas! Lá vêm elas! Foi a senha. Foram todos para a calçada ver a noviça passar.
- Eu parei nessa menina, pô.
-Vai lá! Vai lá! Bate de frente, cara.
Ele foi. Com todo aquele preparo químico no cérebro, encarou a beldade.
Diante do fato, a Madre Superiora se pôs à frente da subordinada desejada e ao mesmo tempo, braços flexionados para trás, conservava as mãos espalmadas nas ancas da jovem, como p’ra lhe proteger.
Não foi o suficiente.
- Casa comigo, casa! É casa, comida e roupa lavada. Com comunhão de bens, conta conjunta, o diabo a quatro. Vamos viver em Maiame, ouviu? Maiame! Tira esse hábito, tira, entra no carro e vamos para o aeroporto, para o avião, para os Estados Unidos, para o inferno, para onde você quiser.
E a noviça: vá de retro satanás, afasta-se de mim, ô demônio!
A Madre Superiora: mas você casa, preto no branco, papel passado e tudo o mais?
Ele: caso! Caso!
Foi aí que a Madre Superiora, saindo da posição de defesa da jovem, encarou o cretino, olhou para um lado, olhou para o outro, arrancou o hábito do corpo, jogou-o ao chão, e segurando no braço dele disse: vamos!
E foram para o carro. Ele perplexo, e ela só de calcinha e sutiã, debaixo do maior aplauso.
por FLORIANO LOTT
lottibus@gmail.com
Postado em 03/06/2009
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