Sociedade dos Literatos
Após fechar prontamente o trinco da porta, alinhar em correto o nó da gravata, tirar alguns fiapos de linho errante em meu paletó, desço as escadas preparando o meu sorriso mais espontâneo: não quero deixar dúvidas ao porteiro quanto ao bem-estar que ele me julga ter. Se não sou feliz, pouco se me dá. Se não aparento o ser, preocupa-me profundamente. Passo pela portaria; saúdo-o festivamente, mas sem exageros, e parto rumo ao trabalho.
(As olheiras que tentei por força disfarçar são um atestado de que há dias não tenho uma noite sequer de sono tranqüilo. Meu medo não é cessarem por completo as noites de sono tranqüilizantes, e sim acabarem percebendo, os outros, essa minha condição.)
Chego ao trabalho e num mesmo tom cotidiano, sem nuanças na voz – uma preocupação autônoma – procuro saber se todos estão bem, porque por acaso eu acordara irremediavelmente em estado de graça, como diariamente. Todos os colegas de trabalho sorriem com uma resposta afirmativa não negligenciada na boca -- sendo dessa maneira, eu prefiro mesmo. Sento-me à mesa, vejo alguns serviços pendentes, algumas declarações, outros relatórios, procuro pela minha caneta favorita e acho-a sobre um pequeno envelope pardo (poderia ser branco, mas um branco idoso) com o meu nome grifado em letras desengonçadas feito rubrica. Sem demoras abro e leio, a priori sem interesse: “Reis, tu não estais bem.”, de repente ajeito-me na cadeira, sem necessidade a fundo, como procurando atenção: ”Teu rosto reflete teu interior que é puro vazio. Reis, tu não estais bem. E qual o erro em buscares ajuda? Tens medo de que te censurem?”. Nem bem leio a última frase do bilhete, fito todo o escritório a fim de encontrar uma expressão irônica que for e denote o autor dessa blasfêmia, muito embora tudo não passe de uma verdade inquestionável. Meu semblante titubeia, no entanto luto veemente para repor a máscara de antes.
Pensei durante o dia a fio sobre o bilhete, cacei o culpado: todos poderiam o ser. Mas por que culpado? Não haveria de ter culpa alguém que estivesse querendo convencer-me de uma verdade pertinente. “Mas que raios de bilhete é esse!”, ruminei em um tom de voz até alto demais: todos voltaram suas atenções a mim. Não me prestei a fazer nada: nem explicar nem fingir que não houve esse lapso (foi mesmo constrangedor – e como tenho pavor a isso). Arrumei minha pasta, ordenei os papeis, priorizei as pendências e, sem antes repetir todo o ritual de pela manhã (gravata, fiados de linho...), segui para casa.
Toca o telefone. Alguma sensação precavia-me de que não era uma ligação normal. Atendo com aparente ansiedade de quem já espera por algo, mas sem muito esperar, naturalmente. Nada digo, limito-me ao silêncio, quando muito ao ruído da minha respiração. Não sei por que esse estado súbito: talvez a máscara folgara, desde ontem. Sem contar o raciocínio lento causado pela noite de insônia. Uma voz feminina -- doce, lânguida e viscosa – começou a repetir quase todo o conteúdo do bilhete, como se estivesse exatamente lendo-o: “Reis, não estais bem.”, dá uma pausa para o questionamento aflorar mais voraz, “Tens medo de que te humilhem? Não percas tempo em mentir.” Respondo por final com uma voz embanhada em vergonha, -- quis usar de mesmo vocabulário, pra não me parecer menos erudito: “Estou deveras bem. Nunca senti um bem tão grande quanto o de agora”. “Tu mentes, Reis. Por que?”. “Não estou aqui a mentir. Venha ter comigo, posso provar-te. Digo-te certo de quem sou”, ainda com uma voz mais corada: “Quem és? Como sabes o meu nome?. “Tu mentes, Reis. E por certo não sabeis quem és, e mais: o que, para ti, tua vida significa?” A voz ignora meu questionamento, como faria qualquer outra voz nesse intuito.
Nesse meio tempo uma pessoa desconhecida, talvez um estagiário em seu primeiro dia de trabalho, não sei, procura uma fresta para poder dirigir-me a palavra. Hesita, abre a boca, mas fecha, numa auto-censura. Olhava-o fixamente ouvindo o sermão daquela voz feminina. O conjunto da cena fez-me criar uma aversão àquele sujeito; “o que diabos esse rapazinho quer falar?”. A voz feminina não cessava; aquilo já me fazia um mal muito grande, tive que por infortúnio bater-lhe o telefone na cara, chegada à hora de um disparate. Tenho um enorme desgosto em ser deselegante com qualquer pessoa, isto inclui até meus desafetos: termo que a dona daquela voz já estava inserida de prontidão.
Ao bater o telefone, com o rosto em febre, o rapaz imediatamente indaga-me: “Senhor Reis, o senhor está bem?” Tratei de articular a sua demissão. Pobre garoto.
Agora já em casa, devidamente vestido para deitar-me, recebo mais um telefonema: penso a priori na voz feminina, mas ao atender não o era. A voz rouca de Orestes, um amigo de infância, estanca as batidas rápidas do coração que nem espera as certezas se fixarem primeiro: obedece ao imediato. Orestes com um tom de voz resignado, procura pelas tangentes dizer-me que são muitos os comentários sobre o meu bem-estar. Quer dizer, sobre o meu mal-estar. Ele sabe da minha preocupação para com os outros, e, sobretudo, aos que pensam a meu respeito. Por isso seu tom de voz, e, antes de mais nada, a sua precaução em não perguntar-me se estou bem ou mal: Orestes sempre fora prudente, desde muito novo. Também com um nome desses.
por EDERVAL FERNANDES
Postado em 02/04/2009
Outros textos:
De como o Futebol mudou o Brasil
Caro escritor, para ser um integrante da Sociedade dos Literatos é só mandar seus contos, crônicas e poemas para o e-mail: revistaunica@revistaunica.net com a sua devida indentificação.
Abraço
Grupo Única
REVISTA
ÚNICA |
| —Editorial |
Cadernos |
| —Capa |
| —Entrevista |
| —Cidade |
| —Pop Up! |
| —Século XXI |
| —Opinião |
Links |
| —Blog do Velame |
—UEFS |
| —Reactivalab |
| —Sociedade dos Literatos |
Colunistas |
- Adson Sá |
| - Mariana Figuerêdo |
| - Francklin Roozewelt |
| - Kassia Luana |
| - Evaldo Costa |