Você sabe historiador como é que é.
Eu o sou, mas guardo as devidas proporções desde que estava olhando para fora de minha janela e vi o cocheiro mais o alferes narrando um atropelamento que eu também havia assistido. Foi no dia anterior, e cada um contava diferente. Foi aí que eu refleti: como posso eu registrar com exatidão fatos acontecidos há séculos e séculos atrás?
Falo isto porque agora mesmo acabo de decifrar os hieróglifos da Pedra da Gávea. Será que o escrevinhador lascou certo o ocorrido, nela?
Mas a mim só me resta divulgar o decifrado. Eis:
“Corria o ano de vinte mil e novecentos e ao redor desta pedra havia um Império. O Império Serrano, campeão de muitas lutas contra outra cidade-estado chamada Portela.
Seu território estendia-se por quase todo o atual Império Ianque. A população era oriunda de saqueadores que perdiam sua fortuna nos cassinos, pois não podiam empregá-las a juros, porque Santo Agostinho disse que cobrar juros era pecado - isso até inventarem o purgatório para os judeus poderem dizer que eram convertidos - e vinham saquear as riquezas daqui, e novamente ricos, voltavam para a Oropa.
Tinham os índios, os mais sábios do continente. Construíam pirâmides, tinham escrita e dominavam a astronomia e a agricultura. Quando os padres chegaram destruíram sua cultura, pois eram mais intelectuais que os Oropeus da época. Para mão de obra iam à África e lá era assim: tinha o rei deles que tomava conta de vender os súditos. Qual no Império Serrano aos dezoito sóis o jovem se apresenta para o serviço militar, lá na África, se apresentava para ser vendido como escravo. Eles os vendiam. Na boa.
Na marra também.
Este amálgama veio a formar o Império Serrano.
A coisa nunca foi bem, porém no ano de vinte mil e novecentos o Império começou a se dissolver. Os pivetes roubavam garantidos pelo seu Estatuto. Os do povo roubavam, diziam que era porque onde moravam faltava saneamento básico. A razão do crime organizado era não manilharem a vala da privada deles. A classe média roubava um animal chamado gato. Gatos de todas as raças: tinha o Gatonet; tinha o gato Pena-d’água; tinha o gato No-relógio; e o mais comum dos gatos: o gato Sonegação-fiscal.
Como os doutos não conseguiram governar com êxito, resolveram que o Imperador seria um analfabeto.
O povo estava desesperado.
Mas aí a coisa piorou. Institucionalizaram a safadeza.
Porém, utilizando um rudimentar sistema de comunicação da época, uma geringonça chamada Pecê, o povo resolveu que no dia sete de setembro, às cinco da tarde, iriam dar jeito no Império. Como papo não adiantaria, iriam apelar para a ignorância. O líder da revolução como não podia deixar de ser, seria o cara mais popular e mais comunicativo do Império. Chamava-se Régis.
Régis Gobbo.
Ficou combinado assim: o povo ilhéu tocaria fogo nos dois maiores palácios da Ilha da Fantasia.
O povo da Pedra da Gávea tacaria fogo em todos os presídios. Era pouca coisa, mas pelo menos aliviava a bandidagem.
O povo de Santo Pátio cortaria o abastecimento de seus produtos manufaturados para o resto do Império até o Imperador fugir para Roma, pois para tanto toda a família dele, prevendo que um dia o povo se encheria com a roubalheira, já havia se naturalizado romana, preparando a fuga.
Tudo isso combinado boca a boca, pois havia censura aos jornais.
Ficou acertado que o grande líder seguiria na frente da tropa; e a tropa só se deslocaria com a sua presença.
Fez um último discurso: meu povo! Por vocês eu me embrenho na Amazônia, luto todo arranhado contra o inimigo, contra os selvagens, contra as feras e contra a selva.
Por vocês eu perco um braço, perco uma perna, perco um olho, e ainda vou em frente, lutando.
Por vocês eu cumpro prisão perpétua, ou fuzilado no paredão.
O povo a-cre-di-tou...
No dia sete de setembro, às cinco, seis, sete, oito, nove horas, cadê o Salvador da Pátria? O mais valente da raça? O homem que mais queria dar jeito no Império?
Dia seguinte foram ter com ele: mas você não disse que matava e morria pela causa? E ele - o mais patriota dos do povo - virou para a turba e soltou a pérola: é... Mas ontem fez uma chuvinha chata... Né?”